segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Capítulo I - O estranho


É mês de festa em Blumenau, a cidade da Oktoberfest! Festa do chope, tradição tão valorizada pelos blumenauenses, que deixam a rotina de lado para encontrarem alegria, diversão e muita cerveja. Pessoas trabalhadoras e batalhadoras, que mesmo diante de infortúnios como enchentes e deslizamentos, não deixam de querer viver, de lutar pela vida.

Um grupo de amigos formava uma corrente de risos, saltos e copos enquanto curtiam a estreia da vigésima sexta edição da maior festa alemã das Américas. Como sempre, a festa começou com o pé direito, apresentando um desfile cheio de cultura típica, carros artísticos e carros de cerveja gratuita, músicas animadas e as pessoas que participavam com sua contagiante alegria, vestidas ou não com trajes tradicionais alemães. Uma grande festa!

O grupo de amigos era formado por três rapazes, Rodrigo, Carlos e Denis, e duas lindas moças, Gisa e Helen, todos emancipados e já bem desinibidos com grandes copos de chope nas mãos, enquanto dançavam à moda alemã de um jeito bem brasileiro, chegava ao ridículo às vezes. Helen era a única que sabia se controlar, mas desejava ter um pouco da loucura dos amigos, pois sempre sobrava para ela a preocupação e o trabalho de babá. Sempre procurava adotar uma postura correta para agradar, porém isso a impedia de se divertir e aproveitar os bons momentos que tinha ao lado de seus melhores amigos. Já Gisa, namorada de Denis, era uma garota liberal, sem pudores e que não perdia um bom festejo. Denis sabe se divertir, mas não pode evitar o ciúme que sente da personalidade sensual-descontraída de sua namorada. Por outro lado, Rodrigo e Carlos são a dupla dinâmica da palhaçada e da curtição. Nada é capaz de abalar o ânimo desses dois, são como o gordo e o magro dos tempos contemporâneos.

À medida que o desfile tomava conta da principal rua comercial da cidade, o quinteto seguia a multidão, parando somente para recarregar os copos nos Bierwagen (carros de cerveja). Mais à frente, cerca de duzentos metros, um campo de batalha estava posto, dezenas de jovens e alguns adultos embriagados iriam dar início a uma guerra, mas não era uma guerra entre gangues, ou uma guerra épica com espadas e escudos, tampouco um confronto com rifles, fuzis ou metralhadoras, e sim uma guerra diferente. Estava prestes a começar a primeira guerra municipal do chope!

De cada lado da rua, dois contingentes se formavam, munidos de armas carregadas de chope – garrafas de dois litros, balões, baldes e armas d’água cheias de cerveja. Risos e gritos de guerra de ambos os lados. Rodrigo e Carlos se dispersaram dos amigos e correram para o grande acontecimento.

- Era só o que faltava, – disse Helen – o que tá acontecendo aqui?
- Não acredito! – Denis estava surpreso. – Eu pensei que era só conversa. Vocês se lembram que eu tinha falado sobre a comunidade Guerra do Chope? Tinha uma galera participando dela. Eles vinham preparando esse confronto há um tempão, desde o começo de fevereiro! Nossa! Não pensei que eles fossem levar a sério o negócio... Ah, eu vou ter que participar. Será que eu vou sobreviver nessa guerra? Vamos lá!

Denis, animado, correu desengonçadamente para se juntar ao povo do lado direito. Rodrigo e Carlos, que estavam do lado oposto, já receberam seu armamento de batalha.

- Isso vai entrar pra história! – animou-se Gisa. – Vamos Helen, você não vai querer ficar de fora dessa, vai?
- É claro que eu vou! Vai ser uma nojeira... quero só ver como isso vai acabar.
- Deixa de ser chata amiga! É só chope! Vamos!

Enquanto Gisa tentava levar Helen para a guerra, todos estavam em posição, murmúrios se intensificaram, como se estivessem combinando estratégias de combate, logo a gritaria recomeçou e, no momento seguinte, no vácuo de dez metros, uma mulher morena, em trajes curtíssimos, andou até o centro da rua e parou. Assim em que Gisa arrastou Helen para o meio da rua a contragosto, a mulher levantou os braços e bradou:

- Atacar!

As massas correram ao encontro, armas a postos e em segundos se misturaram. Jatos de chope voavam por todos os lados, baldes virados, pessoas encharcadas, gargalhadas e gritos se intensificaram e a guerra começou. A movimentação atraiu a atenção de dezenas de pessoas que se aproximaram para contemplar aquela divertida loucura.

Gisa e Helen foram atingidas totalmente por uma onda branco-amarelada que veio de uma garrafa chacoalhada por Rodrigo. O robusto amigo ainda completou aos berros:

- Morreu! Morreu!

Enquanto o alvoroço prosseguia, o crepúsculo já se anunciava, dando ao céu cores mescladas em laranja-púrpura. Alguns já caíam estufados de tanto beber, outros perseguiam o público que assistia e a guerra estava próxima do fim...

Helen, enraivecida por estar fedendo à cerveja, encostou-se em uma vitrine e se pôs a torcer a barra da camiseta. Um estranho se aproximou.

- Loucura não é? – disse o homem moreno, olhos negros, cabelos desgrenhados e roupas desgastadas.
- Totalmente! – respondeu Helen, sem olhar para o estranho. – Espero que isso não vire moda. Que nojo...
- Você tem razão. Mas até que é divertido, não acha?
- Nem um pouco, eu preferia tá em casa. Só de pensar que eu me produzi toda pra tomar um banho de cerveja, não poder ver o desfile todo e, além de tudo, ter que me incomodar cuidando daqueles dois ali – apontou para Rodrigo e Carlos que se encontraram e dançavam juntos a melodia do “vai e vem”.

Helen olhou para o estranho e afastou-se discretamente. Ignorando a atitude dela, o homem disse:

- Você lembra muito a minha filha... ela ia fazer quinze anos nesse mês, se tivesse viva...

Ele falava de um jeito neutro, sem demonstrar emoção alguma.

- Sinto muito.
- Não sinta. Eu demorei muito pra entender o que eu preciso fazer, mas agora eu tenho um caminho pra seguir. Tome cuidado com os homens dessa cidade, eles são capazes de coisas terríveis. Todos irão pro inferno... Inclusive eu. – Ele se aproximou da garota, que olhava boquiaberta. – Os seus amigos também, tome cuidado com eles, hoje eu te livrei de um – o homem revelou um punhal manchado de sangue e continuou: – mas ainda faltam dois.

- Você tá louco? Eu tenho que ir, meus amigos tão me esperando. – E andou alguns metros, a passos largos, sem ter coragem de olhar para trás. Helen achou estranha aquela situação. Por que aquele estranho veio falar com ela? E que conversa louca foi aquela de todos os homens irem para o inferno? O pior foi o punhal, será que ele realmente matou alguém? Procurou pelos seus amigos. Rodrigo e Carlos estavam no mesmo lugar.
- Vamos embora meninos, não estou bem, precisamos encontrar o Denis e a Gisa.
- Cara, eu bebi demais... vamos sim. – concordou Carlos, saltando sobre as costas de Rodrigo, que cambaleou alguns centímetros.
- Se você não fosse essa vareta eu não te carregava – confessou Rodrigo, antes de seguirem Helen. – Espera garota, eles tão bem!

Helen observou cada lugar nos arredores e não havia sinal do casal, só um aglomerado de pessoas mais à frente. Será que aconteceu alguma coisa? Meu Deus! Pensou. O coração batia acelerado, temendo o pior, principalmente agora que ouviu aquilo do estranho homem, e de ter visto o punhal sujo de sangue. Abrindo caminho entre as pessoas, Helen chegou ao centro e estaqueou.

- Denis! Acorda, acorda, amor! – Gisa estava ajoelhada, aos prantos, enquanto tentava reanimar o corpo de Denis, que sangrava muito. – Chamem uma ambulância!
- Já chamamos – respondeu uma moça na multidão. – E a polícia também.

Aquilo não poderia estar acontecendo, Helen não acreditava no que via. Denis estava morto, com um sulco profundo nas costas, o que trouxe a imagem do punhal sujo de sangue daquele homem. Assassino!

A Oktoberfest daquele ano não seria a mesma... pelo menos não para o grupo de amigos que há poucas horas transbordava de alegria e animação, mas naquele momento estava completamente arrasado pela morte de um grande amigo.

Em cinco minutos a ambulância chegou, e rapidamente levou Denis para longe, não tão longe quanto a alma dele alcançaria...

Helen queria respostas. Procurou avidamente pelo estranho, ignorando o medo e a dor, mas não encontrou qualquer vestígio do assassino.

Quem era ele? Por que cometeu esse crime? O que Denis fez pra ele? E será que Rodrigo e Carlos seriam os próximos? Afinal ele havia dito que a livrara de um, mas tinha que ter cuidado com os outros dois. Sejam quais forem as respostas para todas as questões, Helen precisava encontrar, ou veria mais amigos morrerem. Gisa! Preciso ficar com ela.

O dia começou com uma grande festa, porém terminou com uma triste tragédia...

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