Um dia chuvoso e frio, como sempre são os dias de outono no sul. E lá se foi mais um despertador, espatifado no chão por causa da minha intolerância a esse som inquietante pela manhã. Parece impossível me acostumar, acho que, em cinco anos, já devo ter batido o recorde do homem que mais quebrou relógios no mundo; são mais de quarenta. Não costumo contar, mas minha esposa não me deixa em paz, fazendo questão de, ao comprar um novo, dizer:
- Meus parabéns! Esse é o quadrigésimo primeiro.
Eu me levantei com certa dor nas têmporas, abusei na festa de despedida do Álvaro, ele estava indo morar em Londres, pois conseguiu um ótimo trabalho por lá. Como eu queria ter a sorte dele, e a conta bancária também!
Depois que lavei o rosto fui direto à cozinha, meu café da manhã costumava sempre estar posto, mas naquele dia não. Eu estava estressado com a minha mulher, nosso casamento não andava muito bem e qualquer detalhe se transformava em motivo para uma briga. Acreditem ou não, pensei em me divorciar por causa de um café da manhã. Tudo ia mal, as despesas e as dívidas aumentavam, a empresa tinha dificuldades com mercadorias de exportação e o momento de eu ser despedido se aproximava. Enquanto lastimava meus problemas, o telefone tocou. A pessoa não se identificou, apenas disse:
- Dia senhor Rodrigo, arruma aí a grana da poupança porque a gente ta com a tua mulher...
Depois disso não consegui discernir palavra alguma, o coração disparou, os joelhos dobraram e, segundos depois, o som da ligação interrompida trouxe o desespero:
- Espera! Espera!
Tarde demais, o estranho desligou. Eu não sabia o quanto de dinheiro ele queria, o local que deveria ir e, acima de tudo, não sabia se meu amor estava bem. Foi o pior dia da minha vida. Senti como se tivessem me arrancado o coração do peito e, por minutos, permaneci ali, no chão, impotente, pensando nas coisas mais absurdas. Quando despertei daquele surto, procurei alguma forma de poder agir; pensei em ligar para a polícia, mas seria muito perigoso, e a paranóia começou a voltar, pois a única coisa que ouvi, em juízo, foi para arrumar o dinheiro, mas quanto? E como faríamos a troca? Automaticamente, peguei a chave do carro, um casaco e corri em direção à porta. No momento em que a abri, ali, diante de mim, segurando um guarda-chuva e algumas sacolas, estava ela, Ana, minha esposa:
- Amor? Eu fui arrumar seu café, mas não tinha pão. Resolvi sair para comprar, sei que você gosta de...
Foi o abraço mais forte, o beijo mais intenso, a melhor sensação do mundo e o banho de chuva mais demorado. Naquele instante eu sabia que tinha nos braços a minha vida de volta. Nunca mais pensaria em divórcio, ou em problemas financeiros, eles ficam insignificantes diante da suspeita da perda de um amor.
Não sei se foi um trote ou uma tentativa de extorsão, só sei que não quero passar por isso de novo.
O pãozinho? Ficou lá numa poça.
Guigo Ribeiro