terça-feira, 24 de novembro de 2009

Capítulo V - O Ponto Final


Matar... tirar a vida de alguém é mergulhar na derradeira escuridão de uma vida amaldiçoada. A primeira sensação pode ser boa, uma satisfação momentânea, mas o momento seguinte é o inferno na terra. Calafrios persistentes, vultos frequentes, sensação de perseguição, vozes que rasgam seus tímpanos a gritar: assassino! Assassino! Era insuportável...

Passei três anos me escondendo, sofrendo, e vivendo como Joel viveu muitos dias de sua vida, solitário e perturbado. Eu não aguentava mais, estava ficando louco, cheguei a conversar com a morte refletida no espelho, certa vez; ela me mostrava imagens da morte que eu sofreria em um futuro não tão distante. Vi-me cercado por dez homens que deformavam meu rosto e meu corpo com pancadas desumanas... Quebrei o espelho com os punhos, apanhei uma caneta e um caderno pequeno e segui, sem rumo, pelas ruas de uma cidadezinha do oeste catarinense. Minutos se passavam e à medida que eu caminhava meus pensamentos se organizavam e pediam para que a história fosse contada, fosse escrita, era a última oportunidade para isso.

Parei em uma praça pouco movimentada e, sentado em um banco de concreto, sob a sombra de uma árvore ligeiramente inclinada, comecei a relatar esta história que lhe contei. Estou a várias horas escrevendo, incansavelmente. Antes de meu desfecho, precisava deixar a minha obra registrada em algum lugar, aquilo tudo não poderia ser em vão. Eu sei o que me espera, já vi. Sei que estou sendo procurado pela polícia, afinal eu segurei aquele punhal e o usei por último, sem nenhuma luva. Minhas digitais estavam lá e por anos estou sendo procurado, eles conhecem o meu rosto, a minha identidade...

Por todos os lugares que passei, todos me apontavam e por vezes quase fui levado, mas conseguia escapar do inevitável. Hoje de manhã eu decidi me entregar, porém não sem antes tornar imortal a minha obra prima! Não sei se ela chegará a ser publicada, mas a escrever, finalizá-la, já foi uma grande vitória.

Ah! Caro leitor ou leitora, minhas desculpas por ter de terminar esse capítulo tão rapidamente, mas a minha carona está chegando, ouço sirenes, alguém deve ter me reconhecido e chamado os servidores da segurança pública. Veja bem... Eu serei preso, não sei se viverei muito tempo lá na cadeia, mas eu morrerei satisfeito, com a sensação de dever cumprido, sabe por quê? Serei o escritor de uma história real, original e sensacional! (risos) Cuide-se para não virar história na mão de alguém...

Aí vem eles, são quatro, é o fim, estão gritando:

Mãos ao alto!

Se não nos virmos no inferno, meus parabéns.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Capítulo IV - Encontro Macabro


Em casa, no conforto de minha poltrona, no dia seguinte a grande explosão do show, meus pensamentos fervilhavam... De manhazinha acordei eletrizado, liguei o rádio e me pus a ouvir as notícias sobre o ocorrido. O incêndio causado pela explosão se propagou em minutos, porém foi contido antes que tomasse todo o Teatro da cidade. Muitas pessoas morreram, inclusive os músicos da banda regional, e outras sofreram queimaduras de segundo e terceiro grau... Pela primeira vez senti uma culpa imensa. Pensei em Joel. Onde ele estava? Por que tinha feito aquilo? Não era desse jeito que eu queria terminar o meu livro, eu precisava do ápice da história, o encontro, maldição!

Aquele dia demorou a passar... Não consegui fazer nada, a frustração de não poder terminar a minha história estava superando a culpa. No entanto, passado das onze horas da noite, enquanto fumava e pensava no que fazer a partir daquele momento, batidas compassadas ecoaram pela sala de estar. Quem poderia ser a essa hora da noite? Pensei. Não tinha uma boa relação com nenhum vizinho, nem mesmo com a família para receber qualquer visita, ainda mais tarde da noite. Hesitei alguns minutos, mas as batidas continuavam mais fortes e rápidas. Fui atender...

- Joel! O que você veio fazer aqui?

- Eu estou com fome, tem alguma coisa aí pra mim? – Joel estava sujo, cheio de lama e mato, sua expressão não era nada boa.

- Entre, vou buscar algo pra você comer...

Apanhei alguns pedaços de pão, queijo, café e pus sobre a mesa. Enquanto Joel devorava a comida com voracidade, perguntei:

- Aonde é que você foi? Por que causou aquela explosão?

- Não era o que você queria? Espero que o maldito que matou a minha filha tenha sido carbonizado!

- Com certeza... Estragou toda a camisa que eu te dei, vai ficar assim agora. Se bem que, pelo que você disse para a garota, não vai mais precisar de roupa. Não ia andar por aí até morrer?

- Sim, mas as saídas da cidade estão todas vigiadas e eu não quero ser preso, quero ver uma última vez a minha irmã que mora em Itajaí.

- E como você vai chegar lá? À pé?

- Eu dou um jeito... Agora preciso que você veja um lugar pra eu me esconder até a situação acalmar.

- Ficou maluco? Aqui você não pode ficar. Depois dessa explosão, é quase certo que os policiais vão bater de porta em porta, o caso se elevou a inimigo de estado!

- Você queria isso, amigo! Foi você que me deu aquela porcaria de punhal, que me disse pra ir atrás do assassino da minha filha, e que se não encontrasse deveria matar todos os que eu suspeitasse, porque um deles seria o maldito!

Joel explodiu tão rápido que, pela primeira vez, eu o temia. Ele se aproximou alguns centímetros e retirou o punhal das costas, apontando-o em minha direção.

- O que é isso! – Disparei automaticamente.

- É pra você! Sabe... Eu estou pensando melhor agora. O que faz um cara dar um punhal pra um homem que esta na pior, sem família, que não tinha ideia de quem era o assassino da filha, se não o fato de que esse cara é o assassino! Fala desgraçado!

- É claro que eu não matei sua filha! – Joel moveu-se rapidamente e me segurou contra a parede. Não pude reagir, a experiência como serial killer o tornou profissional. – Calma! Calma! Eu não sou assassino, só queria te ajudar!

- Queria ajudar? Então por que agora quer pular fora? É claro que foi você! E mesmo se não for, um a mais, um a menos, não faz diferença... – Joel afastou o punhal, aprontando um golpe certeiro. Eu precisava fazer alguma coisa ou iria morrer ali. Foi então que decidi revelar o meu grande segredo:

- Espera, espera! Eu sei quem matou a sua filha...

Joel pareceu surpreso. Seus olhos saltaram, a boca se abriu levemente e a mão afrouxou a arma pontiaguda. Porém seu rosto diabólico não demorou a voltar.

- Você sabe?! E me escondeu esse tempo todo?! – Ele apertou o punhal com tanta força que era possível ver o sangue parando em suas veias. – O que você queria? Que eu matasse só para sua diversão? Pois eu vou fazer você sentir na pele, mas antes, me leva até o maldito! – Joel soltou o punhal e me atingiu com toda sua raiva. Eu senti uma dor latejante no lado esquerdo do rosto e meu corpo tremia. – Vamos, levante e me leve até ele, agora!

Foram dois erros, negar ajuda a Joel e contar-lhe que sabia a identidade do assassino de sua filha, cavei minha própria cova. Sem poder argumentar, em silêncio, acatei a ordem de Joel. Era hora da verdade para ele e o homem que destruiu a sua família...

Foi uma longa caminhada até o bairro vizinho. Meus pés doíam e podia sentir a ponta do punhal que eu entreguei a Joel há quase um ano atrás. Ele não baixou a arma um minuto sequer, e me ameaçava a cada cinco minutos. Se houve uma hora em que o arrependimento me tocou, aquele era o momento. Pensamentos como: Por que eu tive essa ideia perigosa de escrever uma história mexendo com a vida de outra pessoa? Por que eu dei aquele maldito punhal a Joel? Por quê?

“Tudo começou quando eu voltava do trabalho, eu era redator de uma rádio quase esquecida pelas pessoas. Naquela noite eu percebi um movimento diferente no caminho que sempre tomava. Muitas pessoas aglomeradas, uma ambulância e duas viaturas da polícia estavam lá, próximas de uma mata escura. Quando me aproximei da multidão, pude ver o desespero de um homem e uma mulher, com a filha mutilada sobre a marca dos enfermeiros. A menina estava semi-nua. Não demonstrava reação alguma, estava morta. A mãe da menina estava aos prantos, o marido procurava segurá-la, mas ela se soltava e gritava: A culpa é sua! Você matou a nossa filha! Logo a ambulância partiu com a menina e sua mãe, o pai ficou ali, sentado em uma calçada molhada com o coração despedaçado.

A multidão se dispersou em segundos, e o homem permaneceu sentado, escondendo pelos braços a dor da perda. Eu estava tentado... Aquela situação mexeu com minha imaginação, em segundos toda a estrutura de uma grande história se formou em minha mente. Eu procurava por isso há um bom tempo e precisava daquele vilão! Movido pela motivação certa... Aproximei-me dele e ofereci meus sentimentos, Joel não olhou em meu rosto, apenas disse: Minha vida acabou... E o desgraçado que matou a minha menina está livre, fugiu! Eu vou matar...

Essa era a deixa. Eu posso te ajudar, amigo. Eu disse. Quando quiser é só me procurar, tome... Entreguei a ele meu cartão e segui o caminho para casa; apesar da tragédia, com certa animação. Um quilômetro à frente eu pude ver um sujeito saindo correndo da construção de um prédio, estava perturbado e olhando para todos os lados. Ele parou um instante e me encarou. Automaticamente liguei o criminoso ao crime, só podia ter sido ele o assassino da garota. Corri em sua direção, procurando as palavras certas. Hei, você! O indivíduo se preparou para correr novamente. Espere! Não vai por aí, a policia está procurando por você. Do que você está falando? Ele disse. Eu não fiz nada! O homem correu muito rápido, mas eu consegui segui-lo, e descobri onde era a sua casa.

Dois dias depois, soube que a esposa de Joel o deixou e ele não tinha mais onde morar, pois a casa era da família de sua mulher e no momento em que ela deixou a moradia, a casa ficou à venda.

Naquele dia Joel bateu a minha porta. A partir dali, assim que entreguei o punhal a ele, a história começou. Porém eu não imaginava que o rumo não sairia como o planejado. E não imaginava que Joel bateria novamente em minha porta para atentar contra a minha vida.”

Chegamos à casa do assassino. A respiração de Joel dobrou de velocidade, ele me mandou bater palmas, chamar pelo homem. Obedeci. Em algumas tentativas, uma luz se acendeu, e a porta se abriu. Era ele! Joel pediu para o homem se aproximar, mas ele não tinha ideia do que aconteceria.

- Você abusou e matou uma menina de quatorze anos, seu covarde! – Joel me empurrou e saltou para cima do homem sem aviso. Este desviou de Joel e se pôs a correr com todas as suas forças. Foi uma perseguição incrível! Acompanhei tudo como pude. Joel, por algumas vezes, o alcançou e quase acertou o homem, mas a sorte parecia estar ao lado do assassino da menina. Após alguns minutos de corrida, a mata, a mesma na qual a filha de Joel foi encontrada, apontou à frente, e o homem decidiu despistar Joel por lá, seu pior erro...

Joel não demorou a agarrá-lo.

- Chegou a tua hora, maldito!

- Socorro! Você está louco, eu não matei ninguém!

- Você não se lembra? Se aproveitou dela, abusou da minha Nanda e depois a matou... – Joel deixava escapar lágrimas de dor e de vingança. O breu da mata era de arrepiar, parecia que uma energia maligna rodeava os dois. Aproveitando o momento de lembrança, o homem conseguiu se livrar da prensa de Joel e segurou instintivamente a lâmina do punhal, ferindo suas mãos, mas sem se importar com isso. Foi um confronto de força desumano. Assassino contra assassino. Sabe quem foi o vencedor dessa luta? Nem Joel, nem o desconhecido homem, fui eu. Depois que Joel teve sua vingança, conseguindo tirar a vida do seu adversário, enquanto ele recuperava o fôlego, soltou o punhal, sentindo o seu dever cumprido. Eu não podia esperar que ele se recompusesse, pois a próxima e definitiva vítima seria esse que vos escreve. Então, no ato de maior coragem e maior crueldade, eu matei o vilão de minha própria narrativa...

Esse foi o fim da Okterror, a população respirou aliviada, pois como o punhal fora encontrado junto aos corpos no meio da mata, confirmou-se que o matador da oktoberfest recebeu o castigo na mesma moeda.

A vida do personagem chave dessa história teve um ponto final. Helen, minha querida sobrinha, a qual desenrolou o começo desta narrativa, ficou feliz em saber que o desespero e o medo acabaram e seus amigos não corriam mais perigo. Gisa confortou-se quando soube da morte do assassino de seu amado namorado, e a paz voltaria, finalmente, a Blumenau. Enquanto a mim? O escritor, o autor dessa história desde sempre, quer saber o que aconteceu comigo? Eu já conheço o desfecho da minha vida, a peça para terminar de vez este escrito está a caminho...

You think less,
you make a lot
slave life.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Capítulo III - A Okterror


A notícia do assassinato de Paulo Alberto Novaes e Jorge Toss, nas imediações dos pavilhões da Vila Germânica, tornou-se alarmante para os blumenauenses, pois a segurança já havia sido reforçada para que não fosse preciso interromper os dias festivos da Oktoberfest. O maior jornal de circulação na cidade noticiava que dezenas de homens foram e estavam sendo assassinados, a sangue frio, de maneira medieval, com um punhal, e que, mesmo com todas as medidas de segurança – viaturas, circulação policial, fardados ou disfarçados –, não conseguiram prender o culpado por tanto sofrimento. Foi destacado, ainda, o quanto aquela situação rumava ao desespero, à união de civis para procurar o desconhecido assassino, e, ao fim antecipado da festa que já era tratada como a Okterror. E assim eu lhe revelo o título desta narrativa, pois é sobre o que estou falando, sobre uma festa marcada por assassinatos misteriosos cometidos por um homem, a princípio sem motivo algum para matar, mas que o fez com medieval crueldade.

A Okterror, é como foi nomeada a festa daquele ano de 2011, e eu aqui estou, no ano de 2014, na euforia da copa mundial que será sediada no Brasil, em uma praça, com uma caneta e um caderno pequeno, lhe escrevendo passagens, presenciadas por mim, desse acontecimento que ficou conhecido nacionalmente. O motivo que me levou a ver, a ouvir e a não revelar à polícia quem era o criminoso, por enquanto, é dispensável, mas eu contarei assim que for preciso.

Dia 17 de outubro de 2011 foi um dia inesquecível, principalmente para um escritor como eu, um prato cheio para render uma grande história.

Mesmo como todos os assassinatos que ocorreram, todos os problemas como a população pressionando as autoridades, a imprensa, e duas das maiores emissoras do país frequentando a cidade por causa da repercussão do Homem do Punhal, o grande show de uma banda regional, que não cabe citar o nome, pois particularmente eu odeio, iria acontecer de qualquer maneira.

Desde que os dois amigos foram encontrados mortos, Joel não dera as caras em nenhum lugar de Blumenau. Ninguém o encontrava, era incrível a capacidade dele de se esconder daqueles que o estavam caçando. Com três dias de paz e calmaria, sempre com um pouco de receio e cautela, os blumenauenses precisavam do grande show, da animação. A segurança triplicou, não se sabia se toda a circulação policial era só dos servidores de Blumenau ou se outras cidades se envolveram no caso. A questão era que o show iria acontecer. E eu teria o terceiro capítulo desta história!

Tudo estava preparado. A banda chegou no final da tarde, sem o menor problema de tocar em uma cidade com um assassino à solta, estavam até animados, e o palco estava montado. Porém, em um lugar público: na frente do Teatro Carlos Gomes. Impressionante, acho que a confiança foi um pouco demais, eles não sabiam quais eram as intenções de Joel, pois a segurança parecia indubitavelmente forte, mas ninguém, nem mesmo Helen, Rodrigo e Carlos, retornando ao posto de personagens principais, sabiam o que estava para acontecer…

Ao cair da noite, Helen e seus dois amigos, aparentemente conformados e recuperados da perda de Denis, estavam a caminho do show de sua banda favorita, nem se importavam com nada, queriam e precisavam se divertir. A garota aceitou o convite de ir para a apresentação dos músicos, no entanto, tinha outro interesse também, o de se encontrar novamente com o estranho do desfile, Joel. Uma jovem esperta, astuciosa. Eu a conhecia, e ainda a conheço... Uma pedra no meu sapato, pois ela pressentia, ou tinha certeza, de que o tão procurado assassino iria procurá-la outra vez. Ela estava preparada e determinada a entregá-lo para a polícia. Eu não queria que minha história terminasse tão rápido…

O show começou com os arredores e as ruas lotadas de gente, um amassa daqui e outro de lá, quase não consegui acompanhar os passos da minha heroína. Assim que Helen e os amigos começaram a aproveitar as músicas, ou melhor, o barulho do show, Joel já aparecera e estava inacreditavelmente mudado. Seus cabelos foram raspados, barba por fazer, e as roupas estavam mais apresentáveis – podia jurar que a camiseta esporte azul e preta que ele usava era minha. Finalmente a ação começaria.

Era perceptível a movimentação policial no evento, porém Joel não detinha atenção alguma. Era invisível para as pessoas a sua volta e principalmente para Helen, a qual dançava de modo peculiar junto de Carlos e Rodrigo. Joel se aproximou dos três naturalmente e, no meio da agitação, apalpou algo em suas costas.

- Anda, Helen! Mexe mais essa cintura aí! – pediu Carlos, aos sorrisos.
- Não força, eu não sou muito boa nisso, só gosto do som da banda! – disse Helen. De minuto a minuto ela observava em volta, chegou a cruzar com o olhar de Joel, mas não o reconheceu. Cansada, Helen deixou os amigos, pedindo para eles se cuidarem e costurou a multidão até encontrar um lugar com algum espaço para respirar e ali ficou. Joel sumiu. O procurei por todo lado e nada.

Alguns minutos se passaram e houve uma movimentação demasiada de alguns policiais, um grito abafado ao longe, e quando fui me interar do que havia acontecido, esperando um assassinato, era apenas uma briga entre jovens por causa de uma garota. Onde Joel estava? O que fazia? Voltei para perto de Helen e ela ainda se encontrava sentada, observando os amigos de longe.

- Ele deve ter ido embora daqui, afinal toda a polícia está atrás dele... – disse Helen a si mesma.
- Você está errada. – A menina enrijeceu. Aquela voz grave, só podia ser dele. Quando se virou para encarar Joel, assustou-se com a aparência diferente do homem.
- Meu Deus! O que você fez... – lembrou-se de Denis em um fleche. – Assassino! Soco...
Joel tapou a boca de Helen com agressividade, a levou para um canto, atraindo alguns olhares e disse:

- Quieta! Eu não quero te machucar. Se você me encrencar, antes de ir vou ter que, infelizmente, enterrar essa lâmina na suas costas. Vai ficar quieta? Só quero conversar... – Helen concordou, estava tremendo.
- O que você quer comigo, por que você está matando tantas pessoas, tantos homens?
- Senta aqui e se acalma, depois responderei. – Um homem, que estranhou a situação, perguntou se estava tudo bem com Helen e ela assentiu.

Joel estava diferente. Não era só a aparência, perto da jovem sua expressão não era tão ruim.

- Eu tenho minhas razões, menina. – iniciou Joel. – Esses malditos tiraram um tesouro de mim, me roubaram! Agora vão ter o mesmo destino...
- Tiraram o quê? Foi uma pessoa da sua família? Ah! A sua filha?
- Sim... a minha vida! – Pela primeira vez ele parecia sentir alguma emoção. – Você me lembra muito ela, eu já lhe disse. – Joel tocou com as costas da mão o rosto de Helen e a acariciou como um pai a uma filha. Ela estranhou a atitude, mas não teve reação alguma, apenas disse:
- E você acha que matando essa gente vai trazer ela de volta?
- Eu sei que não vai trazer ela de volta, mas eu tenho um propósito agora e é vingar a morte dela...
- Meu Deus... – Helen não sabia o que dizer, tudo que falasse para Joel seria inútil, ele entrou em um caminho sem volta, estava com uma fúria nos olhos. – E como sua filha morreu?
- Foi morta! Mas não quero falar sobre isso... Já decidi, a minha dor acaba hoje. – Aquilo surpreendeu Helen, o que ele estava planejando?
- Por que você não foi atrás do assassino então? – quis saber a garota.
- O culpado não estava lá! Ela foi encontrada sozinha, abusada e mutilada... O maldito fugiu. – Os olhos marejados e cheios de ódio estavam percorrendo cada semblante masculino nos arredores do show. – E depois que perdi a vontade de viver, alguém, um amigo, me deu o maior dos propósitos, vingar a minha menina. Não vou descansar até matar o desgraçado!
- Mas você nem sabe quem ele é. Está me dizendo que você mata esses homens na esperança de que um será o assassino de sua filha?

Joel concordou, levantou-se e terminou:

- Saia daqui, menina! E se preza tanto seus amigos, leve-os também. Hoje vai ser o fim! – Um sorriso diabólico surgiu no rosto de Joel. – Espero que depois dessa noite a minha missão esteja cumprida... o inferno espera o maldito que te levou de mim, Duda! – Helen sentia o pior de todos os medos, não conseguia se mexer. – Depois dessa noite vou caminhar por esse mundo até a morte me levar...

Joel saiu. Deixou Helen boquiaberta e com o coração batendo acelerado. Segundos depois, ela recuperou o movimento dos membros e disparou em direção aos amigos.

- Vamos embora! Agora!

Cinco minutos se passaram. Estávamos eu, Helen, Carlos e Rodrigo no mesmo ônibus, e a minha conhecida e assustada sobrinha, – Sim. Helen era e é minha querida sobrinha. – não conseguia responder aos questionamentos dos amigos... Até o acontecimento fatal.

BUMM!

Uma explosão intensa, terrível, gritos horrorizados no interior da condução e, ao longe, pela janela, era possível ver um clarão e uma fumaça cobrindo o local do show...

Eu não tinha ideia do que Joel era capaz, nunca poderia imaginar que ele chegaria a um ato desses, entretanto, apesar de trágico, foi um acontecimento histórico!

Cheguei a pensar que Joel teria se matado, mas ele ainda escreveria mais um capítulo nessa Okterror, e um capítulo incrível...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Versos Póstumos


Fui um bebê sem colo...
Um adolescente sem esperança...
Um jovem sem rumo...
Um homem sem futuro.

Vivi em um mundo difícil...
Em um país dividido...
Em um estado esquecido...
E em uma cidade sem oportunidade.

Família, não tive...
Amigos, tampouco...
Só tive um companheiro,
que latindo trouxe alegria
a este coração prisioneiro.

Andei aqui e acolá,
Sem ter pra onde ir,
Sem ter pra quem voltar.
andei, andei e andei...
chamando cada canto de meu lar.

Minha vida acabou,
Levada pela correnteza...
Acolhido aqui estou,
No meio de tanta beleza.

A vida que tive pode não ter sentido,
Mas mesmo assim, agradeço por ter vivido.

Guigo Ribeiro

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Capítulo II - Amigos de Copo


A Oktoberfest começou. Houve um belo desfile, um evento inédito – a guerra do chope – e algo que mexeu com as pessoas lá presentes, o assassinato de um jovem, Denis Azevedo, o qual foi friamente apunhalado pelas costas enquanto se divertia na guerra da cerveja. Muitos que presenciaram o ocorrido foram convidados a prestarem depoimento, mas a única pessoa que realmente pôde contribuir para esclarecer aquele triste episódio foi uma amiga do rapaz, Helen. Ela relatou sobre o estranho homem que se aproximou com uma conversa sem sentido de homens que iriam para o inferno, a filha que havia morrido, o punhal sujo de sangue e então, logo depois desse encontro, ela viu seu amigo assassinado. Helen descreveu as características que conseguiu recordar do estranho e pediu que a segurança fosse reforçada nos próximos dias de festa, ou mais pessoas, principalmente seus amigos Rodrigo e Carlos, poderiam morrer: Ele disse que me livrou de um, mas ainda faltavam dois. Ele é perigoso, ele ta louco!

O velório de Denis passou... deixando Gisa com um vazio, uma tristeza imensa, a qual só o tempo iria amenizar. Apesar dos pesares, a festa continuou. E em um ritmo bem animado, porém era possível perceber que a circulação policial aumentou. Ao que tudo indicava, as pessoas poderiam festejar sem medo de que mais tragédias acontecessem. Era o que faziam Paulão e Jorginho, este era corpulento e barbudo, e aquele era esguio e calvo. Ambos eram amigos, amigões, daqueles de verdade, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, enfim, compartilham praticamente tudo, só não compartilhavam as mulheres, porque eles não as tinham. Dois homens sem família, que moravam juntos e trabalhavam juntos em uma serralheria. O único prazer que eles tinham era o de jogar um bom baralho e beber uma boa cerveja nos bares e botecos mais frequentados. Mesmo com tantos aspetos apontando para uma possível mudança de preferência sexual, eles eram machos! Só não tinham mulher por que a beleza não encontrou o endereço deles.

Paulão e Jorginho deram um jeito no visual e seguiram em direção aos pavilhões, muito bem decorados e entupidos de gente. Estavam com pensamento positivo para aquele dia, tinham treinado algumas cantadas dos anos 90 que, somadas à disputa de chope em metro, dariam certo com certeza. Antes de chegar à Vila Germânica, os amigos vieram de ônibus, já que o carro velho, ano 95, que Paulão tinha, não conseguia andar mais do que seis quilômetros. Porém, nada era capaz de deixar esses dois amigos desanimados.

Lata de sardinha? Lotação? Pior, muito pior, um formigueiro de gente, e algumas pessoas perdem a noção de higiene, mas mesmo assim era divertido. Assim são os dias de festa em Blumenau e isso deixa os dois amigos muito contentes, porque, como são solteirões, gostam de tirar uma lasquinha das moçoilas, e nem se importam de levar alguns tapas de vez em quando.

Logo que entraram em um dos pavilhões, Jorginho ouviu, por alto, que um casal falava sobre o assassinato do rapaz do desfile, Denis, mas a mulher complementou que ao que circula por aí, mais dois homens foram encontrados mortos no banheiro de um bar no centro da cidade. Ela ainda terminou: Você tem que tomar cuidado amor...

Assim que Paulão arranjou dois copos de chope para a entrada do dia, a música típica já fluía bem, era alegria pra todo lado.

— É hoje que a gente vai se dar bem! — disse Paulão, dando um grande gole na cerveja.
— Isso mesmo, meu amigo! — apoiou Jorginho, observando o pessoal. — Hoje nada vai me impedir. Nem dentadura, nem banguela, nem bigode, nem unha encravada, nem nada! Não aguento mais essa seca...
— Cuidado com o que tu fala, home. Se não, invés de galinha, vai acabar encontrado um peru! — Entre uma gargalhada e um gole de chope, Paulão e Jorginho foram se soltando cada vez mais, distribuíam sorrisos e galanteios a torto e a direito, porém nada sortia efeito.

À medida que as horas se avançavam, a noite tomava conta, a visão perdia a nitidez, o cérebro ia para um lado e as pernas para o outro, a festa fervia ainda mais. Não tardou para que um Fritz animado anunciasse, de cima de um palco de shows, a competição do chope em metro!

Os participantes, devidamente trajados, já se posicionavam no centro do palco com as tulipas em mãos e alguma preferência da torcida já se manifestava. A disputa parecia incerta até que um dos competidores começou a babar mais do que tomar, então o primeiro campeão foi conhecido.

— Paulão, irmão, esses cara não são de nada! — desdenhou Jorginho, bebendo em seguida. — Tu inscre... tu inscrev... tu marcô o nome da gente lá?
— Ih! Num me alembrei, porcaria! — lamentou-se Paulão. — Agora num dá mais tempo...
No mesmo instante que a próxima dupla se posicionou para dar continuidade à competição, um homem se aproximou dos amigos. Pele morena, olhos negros, cabelos desgrenhados, e roupas desgastadas.
— Fala seus chopeiros! — abraçando Paulão e Jorginho como se os conhecesse, ele continuou: — Meu nome é Joel. Então vocês querem participar do chope em metro?
— Opa! Era tudo que nóis queria! Esses home aí são fraquinho, moleques! — respondeu Jorginho.
— Tu consegue arranjá um lugar pra gente lá, feioso? — disse Paulão sorrindo.
Joel deu uma tapa em Paulão e o fez derramar o chope. Os nervos esquentaram, mas Jorginho interpôs-se:

— Calma Paulão, pega o meu copo...
— É isso mesmo, desculpa aí — disse Joel. — Pra mostrar que não foi a minha intenção, eu não posso fazer nada pra colocar vocês na competição, mas posso dar uma carona pra casa, ou vão querer ir de lotação?

A oferta agradou os amigos e Paulão logo esqueceu o pequeno problema. Joel juntou-se aos dois e aproveitaram a Oktoberfest como se deve, bebendo, rindo, bebendo e caçando...

As 23 horas chegaram tão rapidamente que Joel ficou preocupado, ele estava estranho, impaciente, e quando viu Jorginho se engraçando para uma jovem menina, cerrou os punhos e afastou-se. Paulão dançava como uma cobra enlouquecida enquanto bebia e sua bexiga não demorou a protestar. Ele foi obrigado a procurar um banheiro o quanto antes. Pra esquerda, para direita, seguiu à fila mais próxima, mas estava apertado demais e resolveu encarar a multidão até sair do local. Joel o acompanhava de perto e, um pouco atrás, Jorginho também saía do pavilhão.

Um dos grandes problemas de um evento como a Oktoberfest é que a noção de higiene se perde para muitas pessoas, principalmente os homens que, na falta de banheiro ou mesmo paciência, fazem suas necessidades em qualquer lugar, em qualquer parede... Foi o que Paulão e Jorginho fizeram, procuraram a parede mais próxima, no lado de fora, um pouco afastada do pavilhão, e começaram a aliviar a pressão. Enquanto os amigos riam e contavam suas tentativas de arranjar uma companheira para o final da noite, Joel, enojado, observava de longe. Com uma expressão diabólica, ele levantou a camiseta, certificando-se de que algo estava lá, e se aproximou devagar.

— Os dois bebuns estão se divertindo? — Joel encostou-se na parede e sua voz mudou para um sinistro grave.
— Opa! Só falta uma gatinha pra brincar... — respondeu Jorginho aos sorrisos. Aquilo parecia incomodar Joel.
— Vocês não têm vergonha de viver essa vida bebendo como dois vagabundos? Mijando nas paredes... Me diz, pra quê viver?
— Beber é a melhó coisa do mundo! — exaltou Paulão — Para de falar besteira, seu E.T! — Os dois amigos riram e Jorginho deixou as calças escaparem.

Joel deu a volta nos dois amigos e, levantando sua camiseta, retirou um objeto puntiforme, com lâminas prateadas que possuía um punho detalhado em bronze, e parecia determinado a cometer uma loucura. Com o punhal na mão, escondido às costas, e uma expressão inerte no rosto, Joel esperou os dois terminarem de urinar e disse:

— Eu fico pensando que dois caras como vocês, solteiros, bebendo demais, devem se aproveitar de meninas inocentes como aquela que você — apontou para Jorginho — estava assediando. Mas isso vai acabar, hoje vocês vão pro inferno...
— Olha só pra isso, irmão! — gargalhou Paulão. — O cara tem uma faca na mão... tu quer mata nóis é? Mas assim? Sem um último pedido?
— É E.T, antes da gente... for pro inferno, um chopinho ia bem! — completou Jorginho, os dois estavam levando a situação na brincadeira, parece que a embriaguez tornava aquilo um sonho, uma visão, algo surreal, haviam ultrapassado os limites da realidade...

Joel não estava brincando, tampouco fora de si ou bêbado, ele tinha uma meta, o crime. Ele já fez isso algumas vezes, começando com Denis, o jovem do desfile. O que esse homem pretende com essa atitude, esses assassinatos? Por que está matando tantas pessoas, homens principalmente? Será por prazer, vingança, protesto, interesse? São respostas que Helen, a amiga de Denis, os policiais que rondavam pelo perímetro do evento e dezenas de pessoas preocupadas com as recentes mortes na Oktoberfest precisavam.

O nome do assassino foi revelado. Ele apresentou-se como Joel e sua aparência não mudou, nem sua sede de sangue, de apunhalar homens escolhidos por aspectos pessoais, os quais ainda não se tinha conhecimento. Paulão e Jorginho olhavam para Joel e gargalhavam exageradamente, achando graça em alguma coisa, uma coisa que só eles sabiam, pois o punhal estava em posição, pronto para rasgar os dois amigos.

— Espero que tenham aproveitado a festa de hoje. É a última. Vocês não verão o sol amanhã.
— Parece filme de terror! Aí que medo Paulão! — divertia-se Jorginho se aproximando de Joel — Quem é você? Freda Cruga?

Foram as últimas palavras de Jorginho, o punhal do assassino penetrou sua barriga tão rápido que o grito de dor foi abafado, e o corpanzil desabou, produzindo um baque alto. Paulão interrompeu o riso e, ao ver o seu irmão de coração caído, sangrando muito, liberou gritos chorosos:

— Não! Jorge! Jorge! Maldito! — Com dificuldade, Paulão saltou para cima de Joel. A luta não demorou muito, a embriaguez foi sua pior inimiga. Depois de alguns segundos de troca de força com o punhal sobre o pescoço de Paulão, ele viu o céu estrelado sumir instantaneamente e ouviu um grito estridente...

Paulão também foi assassinado, ao lado de seu amigo Jorginho. Ambos tirados desse mundo por uma alma negra, fria e diabólica. Descansem em paz...

Uma mulher viu a última apunhalada de Joel e havia gritado com todas as forças, horrorizada. A atitude atraiu muitas pessoas que correram para o local, onde os corpos jaziam imóveis. Joel correu, correu muito, e sumiu no breu de uma mata próxima.

Até quando isso vai durar? Será que a Oktoberfest vai continuar? Tudo é incerto. Teremos que esperar pelo amanhecer...

sábado, 10 de outubro de 2009

Palavras


As palavras não são de ninguém,
Elas pertencem ao mundo.

Elas são usadas a todo momento,
Sem contrato profissional,
Sem contrato de casamento.

São combinadas assim e assado,
Colocadas em cima, embaixo, ao lado...
Sem qualquer restrição,
Sem qualquer preconceito,
Pois o que interessa é o seu efeito.

A criança usa,
A mulher usa,
O homem abusa,
Cria barreiras, limites,
Monopoliza...

As palavras são de todos,
O que lhe pertence é o sentido,
Que nelas é atribuído.

Guigo Ribeiro

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Capítulo I - O estranho


É mês de festa em Blumenau, a cidade da Oktoberfest! Festa do chope, tradição tão valorizada pelos blumenauenses, que deixam a rotina de lado para encontrarem alegria, diversão e muita cerveja. Pessoas trabalhadoras e batalhadoras, que mesmo diante de infortúnios como enchentes e deslizamentos, não deixam de querer viver, de lutar pela vida.

Um grupo de amigos formava uma corrente de risos, saltos e copos enquanto curtiam a estreia da vigésima sexta edição da maior festa alemã das Américas. Como sempre, a festa começou com o pé direito, apresentando um desfile cheio de cultura típica, carros artísticos e carros de cerveja gratuita, músicas animadas e as pessoas que participavam com sua contagiante alegria, vestidas ou não com trajes tradicionais alemães. Uma grande festa!

O grupo de amigos era formado por três rapazes, Rodrigo, Carlos e Denis, e duas lindas moças, Gisa e Helen, todos emancipados e já bem desinibidos com grandes copos de chope nas mãos, enquanto dançavam à moda alemã de um jeito bem brasileiro, chegava ao ridículo às vezes. Helen era a única que sabia se controlar, mas desejava ter um pouco da loucura dos amigos, pois sempre sobrava para ela a preocupação e o trabalho de babá. Sempre procurava adotar uma postura correta para agradar, porém isso a impedia de se divertir e aproveitar os bons momentos que tinha ao lado de seus melhores amigos. Já Gisa, namorada de Denis, era uma garota liberal, sem pudores e que não perdia um bom festejo. Denis sabe se divertir, mas não pode evitar o ciúme que sente da personalidade sensual-descontraída de sua namorada. Por outro lado, Rodrigo e Carlos são a dupla dinâmica da palhaçada e da curtição. Nada é capaz de abalar o ânimo desses dois, são como o gordo e o magro dos tempos contemporâneos.

À medida que o desfile tomava conta da principal rua comercial da cidade, o quinteto seguia a multidão, parando somente para recarregar os copos nos Bierwagen (carros de cerveja). Mais à frente, cerca de duzentos metros, um campo de batalha estava posto, dezenas de jovens e alguns adultos embriagados iriam dar início a uma guerra, mas não era uma guerra entre gangues, ou uma guerra épica com espadas e escudos, tampouco um confronto com rifles, fuzis ou metralhadoras, e sim uma guerra diferente. Estava prestes a começar a primeira guerra municipal do chope!

De cada lado da rua, dois contingentes se formavam, munidos de armas carregadas de chope – garrafas de dois litros, balões, baldes e armas d’água cheias de cerveja. Risos e gritos de guerra de ambos os lados. Rodrigo e Carlos se dispersaram dos amigos e correram para o grande acontecimento.

- Era só o que faltava, – disse Helen – o que tá acontecendo aqui?
- Não acredito! – Denis estava surpreso. – Eu pensei que era só conversa. Vocês se lembram que eu tinha falado sobre a comunidade Guerra do Chope? Tinha uma galera participando dela. Eles vinham preparando esse confronto há um tempão, desde o começo de fevereiro! Nossa! Não pensei que eles fossem levar a sério o negócio... Ah, eu vou ter que participar. Será que eu vou sobreviver nessa guerra? Vamos lá!

Denis, animado, correu desengonçadamente para se juntar ao povo do lado direito. Rodrigo e Carlos, que estavam do lado oposto, já receberam seu armamento de batalha.

- Isso vai entrar pra história! – animou-se Gisa. – Vamos Helen, você não vai querer ficar de fora dessa, vai?
- É claro que eu vou! Vai ser uma nojeira... quero só ver como isso vai acabar.
- Deixa de ser chata amiga! É só chope! Vamos!

Enquanto Gisa tentava levar Helen para a guerra, todos estavam em posição, murmúrios se intensificaram, como se estivessem combinando estratégias de combate, logo a gritaria recomeçou e, no momento seguinte, no vácuo de dez metros, uma mulher morena, em trajes curtíssimos, andou até o centro da rua e parou. Assim em que Gisa arrastou Helen para o meio da rua a contragosto, a mulher levantou os braços e bradou:

- Atacar!

As massas correram ao encontro, armas a postos e em segundos se misturaram. Jatos de chope voavam por todos os lados, baldes virados, pessoas encharcadas, gargalhadas e gritos se intensificaram e a guerra começou. A movimentação atraiu a atenção de dezenas de pessoas que se aproximaram para contemplar aquela divertida loucura.

Gisa e Helen foram atingidas totalmente por uma onda branco-amarelada que veio de uma garrafa chacoalhada por Rodrigo. O robusto amigo ainda completou aos berros:

- Morreu! Morreu!

Enquanto o alvoroço prosseguia, o crepúsculo já se anunciava, dando ao céu cores mescladas em laranja-púrpura. Alguns já caíam estufados de tanto beber, outros perseguiam o público que assistia e a guerra estava próxima do fim...

Helen, enraivecida por estar fedendo à cerveja, encostou-se em uma vitrine e se pôs a torcer a barra da camiseta. Um estranho se aproximou.

- Loucura não é? – disse o homem moreno, olhos negros, cabelos desgrenhados e roupas desgastadas.
- Totalmente! – respondeu Helen, sem olhar para o estranho. – Espero que isso não vire moda. Que nojo...
- Você tem razão. Mas até que é divertido, não acha?
- Nem um pouco, eu preferia tá em casa. Só de pensar que eu me produzi toda pra tomar um banho de cerveja, não poder ver o desfile todo e, além de tudo, ter que me incomodar cuidando daqueles dois ali – apontou para Rodrigo e Carlos que se encontraram e dançavam juntos a melodia do “vai e vem”.

Helen olhou para o estranho e afastou-se discretamente. Ignorando a atitude dela, o homem disse:

- Você lembra muito a minha filha... ela ia fazer quinze anos nesse mês, se tivesse viva...

Ele falava de um jeito neutro, sem demonstrar emoção alguma.

- Sinto muito.
- Não sinta. Eu demorei muito pra entender o que eu preciso fazer, mas agora eu tenho um caminho pra seguir. Tome cuidado com os homens dessa cidade, eles são capazes de coisas terríveis. Todos irão pro inferno... Inclusive eu. – Ele se aproximou da garota, que olhava boquiaberta. – Os seus amigos também, tome cuidado com eles, hoje eu te livrei de um – o homem revelou um punhal manchado de sangue e continuou: – mas ainda faltam dois.

- Você tá louco? Eu tenho que ir, meus amigos tão me esperando. – E andou alguns metros, a passos largos, sem ter coragem de olhar para trás. Helen achou estranha aquela situação. Por que aquele estranho veio falar com ela? E que conversa louca foi aquela de todos os homens irem para o inferno? O pior foi o punhal, será que ele realmente matou alguém? Procurou pelos seus amigos. Rodrigo e Carlos estavam no mesmo lugar.
- Vamos embora meninos, não estou bem, precisamos encontrar o Denis e a Gisa.
- Cara, eu bebi demais... vamos sim. – concordou Carlos, saltando sobre as costas de Rodrigo, que cambaleou alguns centímetros.
- Se você não fosse essa vareta eu não te carregava – confessou Rodrigo, antes de seguirem Helen. – Espera garota, eles tão bem!

Helen observou cada lugar nos arredores e não havia sinal do casal, só um aglomerado de pessoas mais à frente. Será que aconteceu alguma coisa? Meu Deus! Pensou. O coração batia acelerado, temendo o pior, principalmente agora que ouviu aquilo do estranho homem, e de ter visto o punhal sujo de sangue. Abrindo caminho entre as pessoas, Helen chegou ao centro e estaqueou.

- Denis! Acorda, acorda, amor! – Gisa estava ajoelhada, aos prantos, enquanto tentava reanimar o corpo de Denis, que sangrava muito. – Chamem uma ambulância!
- Já chamamos – respondeu uma moça na multidão. – E a polícia também.

Aquilo não poderia estar acontecendo, Helen não acreditava no que via. Denis estava morto, com um sulco profundo nas costas, o que trouxe a imagem do punhal sujo de sangue daquele homem. Assassino!

A Oktoberfest daquele ano não seria a mesma... pelo menos não para o grupo de amigos que há poucas horas transbordava de alegria e animação, mas naquele momento estava completamente arrasado pela morte de um grande amigo.

Em cinco minutos a ambulância chegou, e rapidamente levou Denis para longe, não tão longe quanto a alma dele alcançaria...

Helen queria respostas. Procurou avidamente pelo estranho, ignorando o medo e a dor, mas não encontrou qualquer vestígio do assassino.

Quem era ele? Por que cometeu esse crime? O que Denis fez pra ele? E será que Rodrigo e Carlos seriam os próximos? Afinal ele havia dito que a livrara de um, mas tinha que ter cuidado com os outros dois. Sejam quais forem as respostas para todas as questões, Helen precisava encontrar, ou veria mais amigos morrerem. Gisa! Preciso ficar com ela.

O dia começou com uma grande festa, porém terminou com uma triste tragédia...

FOLHETIM VIRTUAL


Olá! Continuando as minhas práticas, resolvi escrever uma história em cinco capítulos. Será um desafio que pretendo conquistar. Espero ter o apoio dos leitores ^^.

Bom, essa será uma história de mistério. Seu título será revelado quando assim a narrativa permitir. Por enquanto, a chamaremos de Folhetim Virtual.

Espero que gostem, boa leitura!

Guigo Ribeiro

sábado, 3 de outubro de 2009

RIO 2016!


Parabéns Rio de Janeiro! Parabéns Brasil!

E o sonho torna-se realidade. Nosso país, merecidamente e finalmente, vai sediar as Olimpíadas de 2016! Que possamos, nesses seis anos que se seguirão, preparar tudo para tornar esse acontecimento memorável! (vai ser, acredito.) Que venha Rio2016!

obs.: estava assistindo ao noticiário da noite e, nas reportagens sobre o anúncio do resultado, foi mostrado a recepção da derrota por nossa rival Madrid - que ficou sentida, é claro - E lá no meio da multidão, havia uma brasileira que não se importou com o povo ao seu redor e comemorou euforicamente, pulando e gritando "Rio! Rio!". Eita coração brasileiro, fiel até em território "rival".

Vamos em frente! Há muito o que fazer...
..................................................................................


Neste país tropical,
Nesta terra de guerreiros,
Neste campo de batalha,
vive a perseverança.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Perdão!


Chora... assim, cada segundo, por horas...
Chora... assim, por estas terras, sem parar...

Um lamento contido, intenso demais, milenar;
lágrimas fundidas, de raiva e de dor;
O que te faz tão triste imensidão?

Céu... que já foi suave, azul e inebriante;
agora é alvo, nebuloso e vingador.

Mãe... mãe natureza, sábia e forte;
castiga teus filhos por levá-la à morte;
punição justa, merecida, demorada.

Perdão!
Pelas florestas cortadas;
Pelos rios poluídos;
Pelas explorações;
Pela negligência, maldade,
destruição...
Pelos ferimentos em teu coração.

Tarde demais? Talvez.
Impossível voltar atrás? Não, há tempo;
Arrependa-se, reinvente-se.

Essencial equilíbrio.

Guigo Ribeiro

sábado, 26 de setembro de 2009

Compartilhando...


Olá!

Estou começando efetivamente o meu primeiro contato com "Blog" e minha primeira experiência nesta relação escritor-leitor virtual. Espero que estabeleçamos uma boa troca.

Sabe... Sempre escrevi, escrevo muito, mas sempre com certo receio de ser lido. Coisa que já está superada, afinal o mundo está aí, se não fazemos parte dele, não criarmos nosso espaço, ele nos engole, deleta. Então, a partir de agora, estou aí, começando a minha vida literalmente, e aguardem... ano que vem eu sei que será um ano de muita alegria! Vou correr atrás!

Grato pelo acesso e saudações.

Guigo Ribeiro

CONTO - O PIOR DIA



Um dia chuvoso e frio, como sempre são os dias de outono no sul. E lá se foi mais um despertador, espatifado no chão por causa da minha intolerância a esse som inquietante pela manhã. Parece impossível me acostumar, acho que, em cinco anos, já devo ter batido o recorde do homem que mais quebrou relógios no mundo; são mais de quarenta. Não costumo contar, mas minha esposa não me deixa em paz, fazendo questão de, ao comprar um novo, dizer:

- Meus parabéns! Esse é o quadrigésimo primeiro.

Eu me levantei com certa dor nas têmporas, abusei na festa de despedida do Álvaro, ele estava indo morar em Londres, pois conseguiu um ótimo trabalho por lá. Como eu queria ter a sorte dele, e a conta bancária também!

Depois que lavei o rosto fui direto à cozinha, meu café da manhã costumava sempre estar posto, mas naquele dia não. Eu estava estressado com a minha mulher, nosso casamento não andava muito bem e qualquer detalhe se transformava em motivo para uma briga. Acreditem ou não, pensei em me divorciar por causa de um café da manhã. Tudo ia mal, as despesas e as dívidas aumentavam, a empresa tinha dificuldades com mercadorias de exportação e o momento de eu ser despedido se aproximava. Enquanto lastimava meus problemas, o telefone tocou. A pessoa não se identificou, apenas disse:

- Dia senhor Rodrigo, arruma aí a grana da poupança porque a gente ta com a tua mulher...

Depois disso não consegui discernir palavra alguma, o coração disparou, os joelhos dobraram e, segundos depois, o som da ligação interrompida trouxe o desespero:

- Espera! Espera!

Tarde demais, o estranho desligou. Eu não sabia o quanto de dinheiro ele queria, o local que deveria ir e, acima de tudo, não sabia se meu amor estava bem. Foi o pior dia da minha vida. Senti como se tivessem me arrancado o coração do peito e, por minutos, permaneci ali, no chão, impotente, pensando nas coisas mais absurdas. Quando despertei daquele surto, procurei alguma forma de poder agir; pensei em ligar para a polícia, mas seria muito perigoso, e a paranóia começou a voltar, pois a única coisa que ouvi, em juízo, foi para arrumar o dinheiro, mas quanto? E como faríamos a troca? Automaticamente, peguei a chave do carro, um casaco e corri em direção à porta. No momento em que a abri, ali, diante de mim, segurando um guarda-chuva e algumas sacolas, estava ela, Ana, minha esposa:

- Amor? Eu fui arrumar seu café, mas não tinha pão. Resolvi sair para comprar, sei que você gosta de...

Foi o abraço mais forte, o beijo mais intenso, a melhor sensação do mundo e o banho de chuva mais demorado. Naquele instante eu sabia que tinha nos braços a minha vida de volta. Nunca mais pensaria em divórcio, ou em problemas financeiros, eles ficam insignificantes diante da suspeita da perda de um amor.
Não sei se foi um trote ou uma tentativa de extorsão, só sei que não quero passar por isso de novo.

O pãozinho? Ficou lá numa poça.

Guigo Ribeiro

Meu sonho



Meu sonho é como um relógio.
Vai, segundo a segundo se realizando;
E se ele parar é porque estou falhando.

Guigo Ribeiro

O que é o amor, oh minha flor?



Amor não é paixão;
Amor não é tesão;
Amor não é compaixão,
nem sonho, nem coração.

Amor não é sentimento;
Amor não é conhecimento;
Amor não é amadurecimento,
Nem alento, nem paz, nem sofrimento.

Amor não é loucura;
Amor não é doçura;
Amor não é procura;
Nem sorriso, nem presença, nem clausura.

Amor não é carinho;
Amor não é beijinho;
Amor não é nenhum inho...

O que é o amor, oh minha flor?

Ninguém sabe! Nem o próprio criador...

Guigo Ribeiro

Desvairado



O que tu vês não é o que tu sentes.
O que tu sentes não é o que tu desejas.
O que tu desejas não é o que tu queres.
O que queres não é o que precisas,
e o que precisas não é a realidade.

A tua realidade não é a tua vida,
e a tua vida, a tua vida,
não, não é vivida.
Chega! Ache uma saída...

Guigo Ribeiro

Peripécia de um menino



Cresço e não apareço,
Falo e não abalo,
Grito e não sou ouvido,
Sou o que sou, e sempre
Mal entendido.

Mas o que posso fazer pra
Não passar despercebido?
Tento agir, sorrir e divertir,
Tento cantar, me soltar e agradar,
Mas só o que consigo é fugir.

Fugir do momento,
Do pensamento,
Do reconhecimento,
Pra não me tornar divertimento.

Eu desejo um amor,
Que não consigo encantar,
Desejo uma flor,
Que não consigo apanhar,
Mas só o que eu preciso,
É não ter medo de errar...

É só uma fase e vai passar,
Vou viver a vida como eu sempre quis,
E serei muito, serei muito FELIZ!


Guigo Ribeiro