
Em casa, no conforto de minha poltrona, no dia seguinte a grande explosão do show, meus pensamentos fervilhavam... De manhazinha acordei eletrizado, liguei o rádio e me pus a ouvir as notícias sobre o ocorrido. O incêndio causado pela explosão se propagou em minutos, porém foi contido antes que tomasse todo o Teatro da cidade. Muitas pessoas morreram, inclusive os músicos da banda regional, e outras sofreram queimaduras de segundo e terceiro grau... Pela primeira vez senti uma culpa imensa. Pensei em Joel. Onde ele estava? Por que tinha feito aquilo? Não era desse jeito que eu queria terminar o meu livro, eu precisava do ápice da história, o encontro, maldição!
Aquele dia demorou a passar... Não consegui fazer nada, a frustração de não poder terminar a minha história estava superando a culpa. No entanto, passado das onze horas da noite, enquanto fumava e pensava no que fazer a partir daquele momento, batidas compassadas ecoaram pela sala de estar. Quem poderia ser a essa hora da noite? Pensei. Não tinha uma boa relação com nenhum vizinho, nem mesmo com a família para receber qualquer visita, ainda mais tarde da noite. Hesitei alguns minutos, mas as batidas continuavam mais fortes e rápidas. Fui atender...
- Joel! O que você veio fazer aqui?
- Eu estou com fome, tem alguma coisa aí pra mim? – Joel estava sujo, cheio de lama e mato, sua expressão não era nada boa.
- Entre, vou buscar algo pra você comer...
Apanhei alguns pedaços de pão, queijo, café e pus sobre a mesa. Enquanto Joel devorava a comida com voracidade, perguntei:
- Aonde é que você foi? Por que causou aquela explosão?
- Não era o que você queria? Espero que o maldito que matou a minha filha tenha sido carbonizado!
- Com certeza... Estragou toda a camisa que eu te dei, vai ficar assim agora. Se bem que, pelo que você disse para a garota, não vai mais precisar de roupa. Não ia andar por aí até morrer?
- Sim, mas as saídas da cidade estão todas vigiadas e eu não quero ser preso, quero ver uma última vez a minha irmã que mora em Itajaí.
- E como você vai chegar lá? À pé?
- Eu dou um jeito... Agora preciso que você veja um lugar pra eu me esconder até a situação acalmar.
- Ficou maluco? Aqui você não pode ficar. Depois dessa explosão, é quase certo que os policiais vão bater de porta em porta, o caso se elevou a inimigo de estado!
- Você queria isso, amigo! Foi você que me deu aquela porcaria de punhal, que me disse pra ir atrás do assassino da minha filha, e que se não encontrasse deveria matar todos os que eu suspeitasse, porque um deles seria o maldito!
Joel explodiu tão rápido que, pela primeira vez, eu o temia. Ele se aproximou alguns centímetros e retirou o punhal das costas, apontando-o em minha direção.
- O que é isso! – Disparei automaticamente.
- É pra você! Sabe... Eu estou pensando melhor agora. O que faz um cara dar um punhal pra um homem que esta na pior, sem família, que não tinha ideia de quem era o assassino da filha, se não o fato de que esse cara é o assassino! Fala desgraçado!
- É claro que eu não matei sua filha! – Joel moveu-se rapidamente e me segurou contra a parede. Não pude reagir, a experiência como serial killer o tornou profissional. – Calma! Calma! Eu não sou assassino, só queria te ajudar!
- Queria ajudar? Então por que agora quer pular fora? É claro que foi você! E mesmo se não for, um a mais, um a menos, não faz diferença... – Joel afastou o punhal, aprontando um golpe certeiro. Eu precisava fazer alguma coisa ou iria morrer ali. Foi então que decidi revelar o meu grande segredo:
- Espera, espera! Eu sei quem matou a sua filha...
Joel pareceu surpreso. Seus olhos saltaram, a boca se abriu levemente e a mão afrouxou a arma pontiaguda. Porém seu rosto diabólico não demorou a voltar.
- Você sabe?! E me escondeu esse tempo todo?! – Ele apertou o punhal com tanta força que era possível ver o sangue parando em suas veias. – O que você queria? Que eu matasse só para sua diversão? Pois eu vou fazer você sentir na pele, mas antes, me leva até o maldito! – Joel soltou o punhal e me atingiu com toda sua raiva. Eu senti uma dor latejante no lado esquerdo do rosto e meu corpo tremia. – Vamos, levante e me leve até ele, agora!
Foram dois erros, negar ajuda a Joel e contar-lhe que sabia a identidade do assassino de sua filha, cavei minha própria cova. Sem poder argumentar, em silêncio, acatei a ordem de Joel. Era hora da verdade para ele e o homem que destruiu a sua família...
Foi uma longa caminhada até o bairro vizinho. Meus pés doíam e podia sentir a ponta do punhal que eu entreguei a Joel há quase um ano atrás. Ele não baixou a arma um minuto sequer, e me ameaçava a cada cinco minutos. Se houve uma hora em que o arrependimento me tocou, aquele era o momento. Pensamentos como: Por que eu tive essa ideia perigosa de escrever uma história mexendo com a vida de outra pessoa? Por que eu dei aquele maldito punhal a Joel? Por quê?
“Tudo começou quando eu voltava do trabalho, eu era redator de uma rádio quase esquecida pelas pessoas. Naquela noite eu percebi um movimento diferente no caminho que sempre tomava. Muitas pessoas aglomeradas, uma ambulância e duas viaturas da polícia estavam lá, próximas de uma mata escura. Quando me aproximei da multidão, pude ver o desespero de um homem e uma mulher, com a filha mutilada sobre a marca dos enfermeiros. A menina estava semi-nua. Não demonstrava reação alguma, estava morta. A mãe da menina estava aos prantos, o marido procurava segurá-la, mas ela se soltava e gritava: A culpa é sua! Você matou a nossa filha! Logo a ambulância partiu com a menina e sua mãe, o pai ficou ali, sentado em uma calçada molhada com o coração despedaçado.
A multidão se dispersou em segundos, e o homem permaneceu sentado, escondendo pelos braços a dor da perda. Eu estava tentado... Aquela situação mexeu com minha imaginação, em segundos toda a estrutura de uma grande história se formou em minha mente. Eu procurava por isso há um bom tempo e precisava daquele vilão! Movido pela motivação certa... Aproximei-me dele e ofereci meus sentimentos, Joel não olhou em meu rosto, apenas disse: Minha vida acabou... E o desgraçado que matou a minha menina está livre, fugiu! Eu vou matar...
Essa era a deixa. Eu posso te ajudar, amigo. Eu disse. Quando quiser é só me procurar, tome... Entreguei a ele meu cartão e segui o caminho para casa; apesar da tragédia, com certa animação. Um quilômetro à frente eu pude ver um sujeito saindo correndo da construção de um prédio, estava perturbado e olhando para todos os lados. Ele parou um instante e me encarou. Automaticamente liguei o criminoso ao crime, só podia ter sido ele o assassino da garota. Corri em sua direção, procurando as palavras certas. Hei, você! O indivíduo se preparou para correr novamente. Espere! Não vai por aí, a policia está procurando por você. Do que você está falando? Ele disse. Eu não fiz nada! O homem correu muito rápido, mas eu consegui segui-lo, e descobri onde era a sua casa.
Dois dias depois, soube que a esposa de Joel o deixou e ele não tinha mais onde morar, pois a casa era da família de sua mulher e no momento em que ela deixou a moradia, a casa ficou à venda.
Naquele dia Joel bateu a minha porta. A partir dali, assim que entreguei o punhal a ele, a história começou. Porém eu não imaginava que o rumo não sairia como o planejado. E não imaginava que Joel bateria novamente em minha porta para atentar contra a minha vida.”
Chegamos à casa do assassino. A respiração de Joel dobrou de velocidade, ele me mandou bater palmas, chamar pelo homem. Obedeci. Em algumas tentativas, uma luz se acendeu, e a porta se abriu. Era ele! Joel pediu para o homem se aproximar, mas ele não tinha ideia do que aconteceria.
- Você abusou e matou uma menina de quatorze anos, seu covarde! – Joel me empurrou e saltou para cima do homem sem aviso. Este desviou de Joel e se pôs a correr com todas as suas forças. Foi uma perseguição incrível! Acompanhei tudo como pude. Joel, por algumas vezes, o alcançou e quase acertou o homem, mas a sorte parecia estar ao lado do assassino da menina. Após alguns minutos de corrida, a mata, a mesma na qual a filha de Joel foi encontrada, apontou à frente, e o homem decidiu despistar Joel por lá, seu pior erro...
Joel não demorou a agarrá-lo.
- Chegou a tua hora, maldito!
- Socorro! Você está louco, eu não matei ninguém!
- Você não se lembra? Se aproveitou dela, abusou da minha Nanda e depois a matou... – Joel deixava escapar lágrimas de dor e de vingança. O breu da mata era de arrepiar, parecia que uma energia maligna rodeava os dois. Aproveitando o momento de lembrança, o homem conseguiu se livrar da prensa de Joel e segurou instintivamente a lâmina do punhal, ferindo suas mãos, mas sem se importar com isso. Foi um confronto de força desumano. Assassino contra assassino. Sabe quem foi o vencedor dessa luta? Nem Joel, nem o desconhecido homem, fui eu. Depois que Joel teve sua vingança, conseguindo tirar a vida do seu adversário, enquanto ele recuperava o fôlego, soltou o punhal, sentindo o seu dever cumprido. Eu não podia esperar que ele se recompusesse, pois a próxima e definitiva vítima seria esse que vos escreve. Então, no ato de maior coragem e maior crueldade, eu matei o vilão de minha própria narrativa...
Esse foi o fim da Okterror, a população respirou aliviada, pois como o punhal fora encontrado junto aos corpos no meio da mata, confirmou-se que o matador da oktoberfest recebeu o castigo na mesma moeda.
A vida do personagem chave dessa história teve um ponto final. Helen, minha querida sobrinha, a qual desenrolou o começo desta narrativa, ficou feliz em saber que o desespero e o medo acabaram e seus amigos não corriam mais perigo. Gisa confortou-se quando soube da morte do assassino de seu amado namorado, e a paz voltaria, finalmente, a Blumenau. Enquanto a mim? O escritor, o autor dessa história desde sempre, quer saber o que aconteceu comigo? Eu já conheço o desfecho da minha vida, a peça para terminar de vez este escrito está a caminho...
2 comentários:
Cara, tá INCRÍVEL!!!
Sem noção...
Parabéns Gui, tenho certeza que vc vai ficar muito famoso.
Um beijão da Pâm
:D
Uau!
Quanta criatividade e que mente perversa desse escritor!
Ainda bem que a história não é baseada em fatos reais..rsrsrs
Muito bom!!! Parabéns \o/
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